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O Processo Criativo nas Práticas Cinematográficas: Materialidades

Início: 2 de setembro

 

Objetivos

Tradicionalmente, a análise em estudos fílmicos tem sido orientada pela perceção da obra cinematográfica como resultado final.
No entanto, o filme é um objeto no qual confluem variadas especialidades artísticas e profissionais, e múltiplos processos criativos. Ao longo deste curso, pretendemos explorar as diferentes áreas profissionais que contribuem para o objeto fílmico.
Mais concretamente, através da análise de várias práticas cinematográficas, iremos dissecar a complexidade do processo cinematográfico, focando-nos nas funções específicas que contribuem para um resultado final inevitavelmente multidisciplinar, e na multitude de artes e ofícios que colaboram na construção do objeto fílmico.

 

Programa

Com raiz nos estudos literários, e incidindo sobre os campos das materialidades da comunicação e dos estudos dos media, o termo Materialidades, quando aplicado ao cinema, convoca os diferentes elementos (ou departamentos) que interagem no processo de materialização física de um projeto fílmico: construção do argumento, escolha do suporte, direção de arte, figurinos, acústica, luz, etc. Para este fim, são considerados os diversos profissionais que, ao darem preferência a certas escolhas em detrimento de outras e ao levarem a cabo as suas práticas específicas, interferem diretamente na conceção do filme, assim materializando e transformando a ideia inicial na obra final e favorecendo um determinado entendimento estético da mesma. O objetivo deste curso é o de se complementar a investigação, predominantemente teórica, que já existe sobre a sétima arte, através do aprofundamento da dimensão material, física, “fabril”, que está na origem e na base de todo o objeto fílmico; promovendo o debate sobre a potência comunicativa e expressiva dos vários elementos que materializam e integram uma obra; e entendendo o fazer cinematográfico como um processo complexo onde cada equipa de trabalho assume funções específicas que contribuem para um resultado final inevitavelmente “interartístico” — já que todo o tipo de artes e ofícios colaboram na construção do objeto fílmico. Em vez do enfoque na análise dos diversos códigos fílmicos, dos seus conteúdos e da sua significação, a metodologia das materialidades pretende isolar as matérias que lhes dão forma, tomando cada uma dessas dimensões materiais segundo a sua natureza específica, com vista ao estudo da sua função na construção global do objeto “filme”. A dimensão física da película, as formas, texturas e linhas dos figurinos, os objetos cenográficos, a composição dos ambientes exteriores e interiores, juntamente com o trabalho sobre o som e a acústica: tudo aquilo que é reproduzido na forma abstrata do objeto final que é o filme radica numa realidade concreta e material, que se torna, neste caso, no próprio objeto de estudo. Trata-se, pois, de "desmontar" os vários componentes que estão na origem da constituição "prática" do filme e tratá-los individualmente como objetos passíveis de análise. As aulas serão constituídas por apresentações expositivas, projeção de filmes e discussão com os alunos.


Aula 1: Da adaptação literária ao argumento / O real como matéria da ficção: práticas do argumento cinematográfico

Conteúdo

Exemplos práticos em torno dos seguintes tópicos:

  • Argumento, princípios básicos de formatação para cinema
  • Como escrever “visualmente”
  • Personagem: “quem” e “como”
  • Diálogo e Ação
  • Estruturar cenas, construir sequências
  • Adaptação
  • Subtexto e dramatização

Objetivo: Compreensão dos princípios básicos da escrita para cinema
Duração: 3 horas

 

Aula 2: Do enquadramento à direção de fotografia

Conteúdo

Exemplos práticos dos seguintes tópicos:

  • O que é a repérage?
  • A importância de se escolher o ângulo certo
  • Luz natural e artificial
  • Lentes e enquadramento
  • Tipo de planos: escalas, movimentos, ângulos
  • Película e digital - Diferenças e potencial
  • A cor e o monocromático

Objetivo: Compreensão dos princípios básicos da direcção de fotografia para cinema

Duração: 3 horas


Aula 3: O som como ferramenta essencial da narrativa

Conteúdo

Exemplos práticos dos seguintes tópicos:

  • A fenomenologia do filme sonoro
  • A voz mediada
  • O uso de som e silêncio no cinema contemporâneo
  • O que é design de som?
  • Teoria de som, foco em Michel Chion
  • A música como catalisador da narrativa

Objetivo: Compreensão dos princípios básicos da construção de uma banda sonora para cinema

Duração: 3 horas

Aula 4: A construção do real na direção de arte: cenários e figurinos

Conteúdo

Exemplos práticos dos seguintes tópicos:

  • O que faz e como trabalha um diretor de arte: processo criativo
  • Uma história da decoração para cinema
  • O que faz e como trabalha o figurinista: processo criativo
  • Uma história do figurino para cinema
  • A direção de arte e o seu impacto na construção narrativa

Objetivo: Compreensão dos princípios básicos da direção de arte para cinema

Duração: 3 horas


Aula 5: Montagem para cinema: Construção e Ritmo

Conteúdo

Exemplos práticos dos seguintes tópicos:

  • O que é a montagem? Noção de corte
  • O que é a continuidade?
  • Construção do tempo e do espaço
  • Montagem e construção de um ponto de vista narrativo
  • Evolução da linguagem cinematográfica através da montagem: do cinema mudo ao cinema moderno
  • Montagem na era digital
  • A montagem e a pós-produção cinematográfica

Objetivo: Compreensão dos princípios básicos da montagem para cinema

Duração: 3 horas

 

Bibliografia

Bordwell, David. 2013. Thompson, Kristin. Film Art: an Introduction. New York. McGraw-Hill Companies. 10th edition

Chion, Michel. 2019. “Audio–Vision: Sound on Screen. New York. Columbia University Press

Cucinotta, Caterina. 2018. “Viagem ao cinema através do seu vestuário. Percursos de análise em filmes portugueses de etnoficção”. Covilhã: LabCom

Hamburger, Vera. 2014. “Arte em cena. A direção de arte no cinema brasileiro”. São Paulo: Senac

Salles, Cecília. 2017. “Processos de criação em grupos. Diálogos”. São Paulo: Estação das Letras e Cores

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Caterina Cucinotta é doutorada em Ciências da Comunicação, vertente de Cinema, pela NOVA FCSH, com a tese “Viagem ao cinema através do seu vestuário”, publicada em 2018 pela editora LabCom. Tem formação em Estudos artísticos pela Universidade de Palermo e de Bolonha. Atualmente, é investigadora integrada no Instituto de História Contemporânea da FCSH, onde desenvolve o projeto de pós-doc financiado pela FCT “Figurinos e textura espacial: design e arte no cinema português dos últimos 50 anos.” Leciona o módulo de Direção de Arte e Figurinos no projeto “Cinemalogia” do Festival “Caminhos do cinema português”, é professora convidada das Faculdades de Letras da Universidade de Lisboa e da Beira Interior nas cadeiras de Cinema Português e de História e Estética do Cinema Português. Possui vasta experiência profissional na área dos figurinos para cinema.
Atualmente, tem-se debruçado sobre a temática dos processos criativos dos figurinistas de cinema, abordando a metodologia da crítica genética.

Érica Faleiro Rodrigues é licenciada em Realização para Cinema pela University of the Arts, London. Mestre na área das Ciências da Comunicação por Goldsmiths College e doutoranda em Cinema Português por Birkbeck College, com o projeto de tese Women in Portuguese Cinema Before and After the Revolution: Representation and Reality. É investigadora associada do Instituto de História Contemporânea da Universidade NOVA de Lisboa. O impacto social do seu trabalho como realizadora granjeou-lhe uma Skillset Millennium Fellowship do governo britânico pela realização de documentários sobre o papel da arte na vida de refugiados. Lecionou, como Associate Tutor da University of London, na cadeira de Desenvolvimento de Pensamento Crítico Académico e como professora convidada da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa na cadeira de Práticas Cinematográficas. É diretora-fundadora do Utopia - UK Portuguese Film Festival (em 2019, na sua 10ª edição), projecto financiado pelo Instituto Camões.

Margarida Leitão é licenciada em Montagem Cinematográfica e é mestre em Desenvolvimento de Projeto Cinematográfico, na especialidade de Dramaturgia e Realização, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Atualmente, é professora na área da montagem na Escola Superior de Teatro e Cinema, e do documentário na ETIC - Escola de Tecnologias Inovação e Criação. Realizou várias curtas metragens de ficção e documentários que foram exibidos em festivais por todo o mundo e na televisão. A sua primeira curta "Kilandukilu/Diversão" ganhou uma menção honrosa no Festival Internacional de Curtas de Vila do Conde. Os filmes “A Ferida” e “Muitos Dias tem um Mês” tiveram estreia comercial. O seu último filme, "Gipsofila", além de outros prémios nacionais e internacionais, recebeu o Prémio Especial do Júri no Festival Internacional de Turim. Além de se dedicar à realização e ao ensino, trabalha regularmente como montadora e anotadora.

Rui Lopes é Investigador FCT na NOVA FCSH, integrado no Instituto de História Contemporânea, onde coordena o grupo de investigação Cultura, Identidades e Poder, e co-organiza a Oficina de História e Imagem. Doutorou-se em História Internacional na London School of Economics and Political Science e é autor do livro West Germany and the Portuguese Dictatorship, 1968-1974: Between Cold War and Colonialism (Palgrave MacMillan 2014), bem como de vários artigos sobre a dimensão internacional do Estado Novo. O seu projeto de investigação atual debruça-se sobre as imagens da ditadura e do colonialismo portugueses na ficção audiovisual de diferentes países, tendo publicado recentemente artigos nas revistas Film History e Aniki: Revista Portuguesa da Imagem em Movimento. É o investigador responsável pelo projeto I&D Amílcar Cabral: da História Política às Políticas da Memória e membro do conselho editorial da revista Práticas da História: Journal on Theory, Historiography and Uses of the Past.

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