Alexandre Monteiro, o agrónomo que procura barcos no fundo do Mediterrâneo

Deixou a docência de Biologia e uma casa ao lado do mar para mergulhar 2500 anos atrás no tempo e, das paredes de um gabinete na Universidade NOVA, dar vida a navios naufragados. Hoje Alexandre integra um projeto europeu que promete transformar numa bússola o rato do seu computador, ajudando-o a navegar nos tesouros arqueológicos do Mediterrâneo.

Dentro da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa (NOVA FCSH), o acesso ao Instituto de Arqueologia e Paleociências (IAP) não é fácil de encontrar. Ao fundo de um estreito corredor de cimento, preso entre dois edifícios altos, fica a sala do centro de investigação onde Alexandre Monteiro, aluno de Doutoramento, se mistura com os seus pares entre um conjunto de mesas sólidas e caixas sobrepostas quase até ao teto. Lá dentro guardam-se louças de um antigo convento da colina de Santana, artefactos do Castelo de Silves ou peças recolhidas em Sharjah (um dos sete Emirados Árabes Unidos) pelos alunos e docentes da Faculdade, mas nenhum vestígio de um navio naufragado, a sua área de interesse. “Na verdade também não trabalho bem aqui”, justifica um dos responsáveis pelo iMAREculture, um projeto que cruza a arqueologia náutica com ambientes de realidade virtual. Como tal, o habitat de Alexandre é antes o fundo do Mediterrânio Oriental, onde se encontram vestígios de navios naufragados, o mais antigo há 2400 anos, bem antes da civilização romana ter erguido o primeiro aqueduto ou do nascimento de Alexandre o Grande (356 – 323 a.C.). Então “o melhor é falarmos na esplanada”, sugere o arqueólogo. “É sempre lá onde surgem as melhores conversas”.

Da secretária para dentro de água

De professor de Biologia do ensino secundário, em 1996, até arqueólogo náutico de um projeto financiado em 2,7 milhões de euros pelo programa de investigação europeu Horizonte 2020, a vida de Alexandre Monteiro não é uma linha reta. Formado numa disciplina bem terrestre, engenharia zootécnica (um dos ramos da agronomia), foi no mar dos Açores, ao largo da Terceira, onde descobriu o seu maior interesse. “Da minha casa até à água era só descer umas escadas e, por isso, levava o material de caça submarina e ia pescar o meu próprio almoço. Um dia, após um curso de mergulho com escafandro, encontrei por acaso uns canhões em ferro debaixo de água”, recorda. “Na ilha todos se conhecem e fui logo falar com o Diretor do Museu de Angra do Heroísmo. Disse-me que não tinham meios para investigar, pelo que eu e um grupo de amigos, também mergulhadores, nos oferecemos para ajudar”. Ainda hoje não sabe a origem da descoberta, até porque “ninguém levanta canhões em ferro do fundo do mar” pela corrosão a que ficam sujeitos, mas o caso abriu-lhe o apetite para a área náutica, onde entretanto concluiu uma formação académica clássica: voltou a fazer uma licenciatura, desta vez em Arqueologia na FCSH/NOVA, onde está hoje a concluir um doutoramento em História com a mesma especialidade.

Durante o percurso, que ainda completa no ensino superior, escreveu quase três dezenas de artigos para revistas científicas (duas indexadas na web of science) e mais de uma dezena para a Visão História, reviu artigos da National Geographic e lutou contra caçadores de tesouros afundados, frequentemente escondidos atrás de supostas empresas de arqueologia. Histórias não faltam a Alexandre, mas invocar o exemplo de Cabo Verde provoca-lhe o alargar dos gestos lançados por cima da mesa: ali, “uma dessas empresas estabeleceu um protocolo como Governo, segundo o qual ficariam com todos os objetos descobertos repetidos, como moedas, mas deixando aos países a possibilidade de guardar os itens únicos. Só que, e é aqui onde está o truque, ressalvando a possibilidade de lhes cobrar a despesa de retirar esse objeto do fundo do mar. Na prática, quando no naufrágio de Passa Pau foi descoberto um astrolábio seiscentista banhado a prata e o Estado o quis guardar, apresentaram uma despesa de várias centenas de milhares de dólares”. O resultado foi que o instrumento acabou vendido pela Sotheby’s ao Mariner’s Museum por 161.000 dólares, em 2000, sem qualquer benefício para o país. Pior, “quando descobrem um achado vão lá e destroem todo o contexto porque só lhes interessam mesmo os objetos de valor”.

Alexandre Monteiro integra o iMAREculture, financiado pela União Europeia. O projeto assenta em três conhecidos locais de naufrágio no Mediterrâneo Oriental, ao largo do Chipre, Malta e Itália

De discurso sempre bem articulado e seguro, são este tipo de afirmações que já valeram ao investigador a necessidade de ser protegido pela Polícia Judiciária. O problema aconteceu durante um processo judicial - que venceu – movido pela empresa de caça ao tesouro Arqueonautas, apoiada por uma antiga ministra da Cultura de Portugal, um antigo Ministro da Defesa de Cabo Verde e por um ex-Chefe dos Serviços Secretos moçambicanos movidos pelo lucro obtido a partir de navios afundados naqueles países. A experiência “congelou-lhe” a vida durante os dois anos que demorou a decisão judicial, mas nunca considerou desistir. “O problema é que eu também tenho um feitio muito tramado, não é Joana [Gonçalves]”, pergunta à colega ao lado, que responde com os olhos num silencio afirmativo. É que algumas pessoas deixam-se encantar pelos números e a caça ao tesouro “é uma atividade que envolve mesmo muito dinheiro… acreditem!”.

Raízes no fundo do mar

Se histórias de tribunal são passado, o presente e futuro são o seu projeto localizado no Mediterrâneo Oriental. Ou melhor, no fundo deste. É lá, em pilhas de destroços, que a equipa de Alexandre Monteiro centra a vontade de fazer nascer na Europa uma consciência de identidade alargada, demostrando-lhe que parte da sua matriz cultural tem origem também na outra margem do Mediterrâneo - por exemplo na civilização fenícia. Mas porque as provas estão pouco acessíveis, no fundo do mar, o iMAREculture visa “aplicar tecnologias de realidade virtual e aumentada a sítios arqueológicos subaquáticos, tornando-os percetíveis a todos os tipos de público”, descreve. A frase não é simples e por isso também não lhe sai à primeira, mas insiste que tem de ser escrita assim, com este rigor.

Num trabalho arqueológico a estrutura que resta dos navios é fotografada no local onde é encontrada antes de qualquer elemento ser, eventualmente, removido

Simplificando, o objetivo é o de trazer para as ciências sociais tecnologias de visualização 3D capazes de serem lidas por qualquer computador, levando aos internautas a possibilidade de, no conforto da cadeira lá de casa, navegarem em “voo de pássaro” por entre vestígios inalcançáveis de outra forma. Ambicioso, recorre também a software de realidade aumentada para, durante o mergulho virtual, ir disponibilizando uma série de informações complementares sobre o local do afundamento, origem e destino da carga transportada ou características da embarcação. Isto apesar de “muitas vezes, não encontrarmos mais do que 5% do que resta da estrutura”, resume o arqueólogo. Findo o trabalho, em 2020 também será possível visualizar num ecrã as ânforas recuperadas no fundo do mar e imprimir uma cópia em casa, em tamanho real, numa qualquer impressora 3D. “É exatamente neste casamento entre a arqueologia e o mundo digital” onde está a grande inovação do trabalho e que “constitui o fator uau!’ do projeto”, simplifica Alexandre numa clareza que o motiva a endireitar-se na cadeira de plástico.

Finalmente, numa direção mais lúdica, vai também dar origem a um jogo de computador que vai trazer aos “gamers” a possibilidade de segurar o leme de navios cientificamente realistas, tal qual aqueles que cruzavam o Mediterrâneo há milhares de anos atrás. De resto, já existe até uma versão experimental.

Para alcançar todos estes objetivos a equipa propõem concretizar este trabalho em três conhecidos locais de naufrágio, sempre no Mediterrâneo Oriental: Mazotos, no Chipre, onde um navio mercante do século IV a.c. jaz a 45 metros de profundidade ao lado de centenas de ânforas, muitas em bom estado de conservação; em Xlendi, em Malta, onde uma embarcação com 2700 anos – a mais antiga alguma vez descoberta no Mediterrâneo – descansa a 400 metros de profundidade; e em Baiae, Itália, onde se localiza o “Porto Julius”, uma importante base naval romana abandonada após o declínio do império, apagada da memória em resultado de várias erupções vulcânicas, na época em que a Europa atravessava o Renascimento. O local é de tal forma relevante, que as autoridades marítimas até interditaram o trânsito na área aos barcos de maior calado, protegendo eventuais vestígios ainda submersos.

O fundo do mar é cuidadosamente marcado, ajudando a registar o local exato onde os objetos são encontrados

A ironia é que, desta vez, o trabalho de Alexandre não implica sequer molhar-se, mesmo que seja fácil imaginá-lo dentro de um fato de mergulho. Tudo se desenrola longe do alto mar, na segurança dos pixéis de um ecrã, com a mente no objetivo de levar todo este conhecimento “a um público tão vasto quanto possível”, resume agora Filipe Castro, investigador da Texas A&M University e do IAP. Um dos coordenadores portugueses do iMAREculture, coube-lhe a tarefa de reunir em torno do projeto um consórcio de sete universidades, uma fundação, o Ministério do Turismo italiano e duas empresas privadas, estas últimas ligadas sobretudo à componente digital. A parte portuguesa, realizada pelo IAP, consiste em recolher todos os dados científicos e criar modelos explicativos de naufrágio. De entre os recursos humanos que escolheu destaca uma equipa “empenhada em promover uma arqueologia pública que promova reflexões sobre o passado, presente e futuro”, tornando-a “numa coisa pública, aberta e democrática, visível a não mergulhadores”. Neste contexto, o convite para Alexandre Monteiro integrar o grupo foi um gesto natural. Afinal, “ele é o arqueólogo marítimo mais competente e mais reputado em Portugal”. Segundo Joana, um dos mais tramados também.

Os navios naufragados são depois reconstituídos num computador. A este exemplo corresponde a Senhora dos Mártires, uma nau portuguesa da Carreira da Índias afundada ao largo de Cascais, em 1606

Alexandre Monteiro, o agrónomo que procura barcos no fundo do Mediterrâneo

Foto à esquerda: Alexandre Monteiro na sala do Instituto de Arqueologia e Paleociências (IAP), um dos locais mais difíceis de encontrar dentro da NOVA FCSH.

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