Arqueologia nos naufrágios dos Açores

Investigação sobre os naufrágios da época moderna (sécs. XVI a XIX) do Centro de História de Além-Mar (CHAM)

A posição geográfica dos Açores colocava as ilhas deste arquipélago português nas rotas de torna viagem para a Europa, conferindo-lhes importância geoestratégica que ultrapassou a dispersão e a pequena dimensão dos seus territórios. A exiguidade das ilhas obrigava também a uma articulação marítima regular inter-ilhas e com o continente, para ultrapassar a falta de matérias-primas, produtos manufacturados ou produtos agrícolas, essenciais ao quotidiano de raiz cultural europeia das suas populações.

 

O Centro de História de Além-Mar (CHAM) é uma unidade de investigação interuniversitária da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa e da Universidade dos Açores, lidera actualmente quatro projectos nesta área geográfica:

A primeira fase deste estudo, desenvolvida em 2008, incluiu trabalhos de prospecção arqueológica visual e com detector de metais de toda a área de implantação do terminal de passageiros em construção na baía da Horta, a norte do porto actual. Identificaram-se diversos vestígios, entre os quais se destacaram vários canhões, uma presa de marfim e artefactos em chumbo, dispersos por uma vasta área.

Numa segunda fase, entre Abril de 2009 e Julho de 2010, a intervenção incluiu a sondagem, a escavação e a remoção dos vestígios arqueológicos existentes nesta área, permitindo identificar o sítio Baía da Horta 1 (BH-001), um naufrágio disperso por uma vasta área entre os 8m e os 11 m de profundidade. Em BH-001 foram localizados materiais relacionados com a carga, o funcionamento e o quotidiano a bordo do navio, nomeadamente - peças de artilharia em ferro, armas de fogo, cerâmicas, vidros e objectos metálicos ou em madeira e sobretudo uma extraordinária colecção de presas de elefante. O estudo deste espólio sugere que está relacionado com um navio mercante de inícios do século XVIII, eventualmente de nacionalidade inglesa, que operava no Atlântico.

Durante todo o século XVI e parte do XVII a baía de Angra do Heroísmo situada na costa Sul da ilha Terceira, foi considerada principal escala atlântica e porto oceânico para os navios portugueses e espanhóis que regressavam à Europa com as riquezas do Novo Mundo e do Oriente.

Ancoradouro natural por excelência, protegido dos ventos dominantes do quadrante Norte/Nordeste, a baía de Angra é sensível às tempestades de Sul/Sudoeste, que estão na origem de inúmeros naufrágios ali ocorridos atestados na documentação e na tradição oral e confirmados em diversas evidências arqueológicas que apenas recentemente começaram a ser identificadas.

O Projecto PIAS, visa contribuir para o estudo do porto de Angra A, B, D, E e F, este património cultural subaquático sob a tutela do Governo Regional dos Açores, está integrado no Parque Arqueológico da Baía de Angra, decretado por esta instituição em 2005. Outro dos objectivos do projecto é o levantamento da documentação escrita relacionada com esta temática promovendo assim uma análise integrada de ambas as fontes, históricas e arqueológicas.

Este projecto interdisciplinar, onde a história, a arqueologia, a ecologia e a biologia se cruzam, tem como objectivo o estudo integrado do sítio arqueológico de naufrágio Angra D, descoberto e escavado em 1998 na baía de Angra, e das fontes escritas e iconográficas relacionadas com a navegação no Atlântico e neste porto. O sítio de Angra D é excepcional pelo seu estado de conservação, tendo permitido a recolha de abundantes materiais relacionados com a vida a bordo e a navegação, como cerâmicas, vidros, metais, couros, fauna e ictifauna, além de uma considerável parte da estrutura do navio em madeira. Uma análise preliminar do contexto indica que se trata de uma embarcação de alto bordo, construída na Península Ibérica em finais do século XVI, ou nas primeiras décadas do século XVII, envolvida na navegação transoceânica ao serviço de Portugal ou Castela.

O projecto conduzirá a uma reconstituição do navio e do seu contexto histórico-cultural. A diversidade e qualidade das fontes escritas e arqueológicas permitirá abordar diversas problemáticas relacionadas com a construção naval (matérias primas, gestão dos recursos florestais, técnicas de construção e arquitectura naval e organização da produção, áreas em que a análise da anatomia das madeiras e a dendrocronologia são cruciais), a vida a bordo (alimentação, hierarquia e organização social) e a organização do navio (estiva e organização do espaço a bordo). Elas possibilitarão, também, aumentar o conhecimento sobre as condições de navegação no Atlântico e a organização da escala de Angra, assim como a construção da paisagem cultural marítima resultante das funções portuárias assumidas pela cidade a partir do século XV.

A equipa do projecto inclui por isso especialistas de várias áreas, capazes de dar resposta aos objectivos do projecto, através de uma estratégia de investigação interdisciplinar inovadora.

A nau capitânia Nossa Senhora da Luz naufragou na costa sul da ilha do Faial, à entrada da baía de Porto Pim, em Novembro de 1615, na fase final de uma ligação atribulada entre a capital do Estado da Índia e Portugal.

O sítio arqueológico ocupa uma vasta área a 6-8 m de profundidade, dominada pela presença de blocos e afloramentos, onde surgem algumas bolsas de cascalho ou cobertura arenosa. Os vestígios de superfície incluem materiais cerâmicos (porcelana e grés), metálicos, pedras de lastro e objectos em vidro. Na sua maioria estes encontravam-se encaixados entre os blocos rolados e os afloramentos, apresentando pequenas dimensões e, nalguns casos, evidentes sinais de degradação das superfícies. A análise destes depósitos e a distribuição dos materiais, que não revelou qualquer padrão significativo, sugerem que o naufrágio foi profundamente perturbado por processos pósdeposicionais, integrando um ambiente particularmente adverso à preservação do registo arqueológico.

O estudo integrado da documentação histórica e arqueológica permitiu, porém, obter dados sobre a cultura material relacionada com o navio. A análise das listas das mercadorias recuperadas após o naufrágio sugere que entre a carga os tecidos tinham uma importância quantitativa relevante, uma vez que a maioria das referências diz respeito a têxteis, em bruto ou já manufacturados, com predomínio dos produtos em algodão, como os beirames, as beatilhas e os canequins. Na Nossa Senhora da Luz vinham ainda outras mercadorias com representação quantitativa menos relevante – pedras preciosas, especiarias (pimenta, canela e noz-moscada) e outras drogas, alcatifas, porcelanas, mobiliário, contas ou objectos em marfim, algumas com expressão no registo arqueológico.

Tendo em conta a avaliação dos dados disponíveis acima referidos, os objectivos deste projecto são os seguintes:

1. Identificação, delimitação, posicionamento e registo dos vestígios de superfície relacionados com o naufrágio da NSL ou outras actividades na baía de Porto Pim;

2. Avaliação dos depósitos arqueológicos enterrados relacionados com a NSL;

3. Continuação da investigação histórica da documentação relacionada com a NSL, integrada no estudo da Carreira da Índia e da escala dos Açores no século XVII;

4. Divulgação e valorização do património cultural subaquático da ilha do Faial.

 

A importância do mar no arquipélago foi decisiva no desenvolvimento urbano, marcado por infra-estruturas portuárias ou de carácter marítimo, e influenciou tradições e práticas sociais. A dimensão do tráfego mercantil e militar resultou também na ocorrência de numerosos naufrágios ou na perda de materiais em zonas de fundeadouro, de várias nacionalidades e proveniências, conferindo ao património cultural subaquático e marítimo açoriano uma dimensão internacional.

A documentação escrita regista cerca de oitocentos naufrágios entre os séculos XVI e o início do XX, com particular expressão para os navios portugueses e castelhanos dos séculos XVI e XVII, onde a região se assume como uma das zonas com maior concentração à escala internacional.

Segundo o investigador responsável José António Bettencourt: “ O desenvolvimento do mergulho autónomo nos Açores revelou desde cedo o potencial científico e patrimonial remanescente deste património. Desde 2006, o CHAM vem desenvolvendo vários estudos sobre este património, numa abordagem interdisciplinar, integrada em vários projectos de investigação.”

Os trabalhos desenvolvidos enquadram-se em problemáticas como a construção naval ibérica nos séculos XVI e XVII, a vida a bordo e comércio marítimo durante a época Moderna ou as boas práticas na arqueologia de salvaguarda em obras no litoral.

 

Factos & Números

Projecto multidisciplinar e interuniversitário:Arqueologia dos naufrágios dos Açores.”

Área Científica: História e Arqueologia

Palavras-chave:

Naufrágio

Arqueologia moderna

Arqueologia marítima

Arqueologia Subaquática

Açores

Período: 2006-2014

Unidade de Investigação Principal: Centro de História de Além-Mar (CHAM)

Investigador responsável: José António Bettencourt

Equipa de Investigação do CHAM

Alexandre Brazão

Ana Catarina Garcia

André Teixeira

Christelle Chouzenoux

Cristóvão Fonseca

Inês Pinto Coelho

Jorge Freire

José Bettencourt

Marco Pinto

Patrícia Carvalho

Teresa Costa

Tiago Fraga

Tiago Silva

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